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RESPOSTA ÀS DECLARAÇÕES DO DEPUTADO
Rodrigo Amorim SOBRE A ALDEIA MARAKA'NÀ
Fotos de George Magaraia
No dia 04/01/19, o jornal O Globo publicou uma matéria sobre um vídeo que teria sido veiculado nas redes sociais pelo deputado estadual Rodrigo Amorim. No vídeo, que o deputado filmou nos arredores da Aldeia Maraka’nà, faz diversas ofensas contra os indígenas que habitam o teritório. Começa chamando a Aldeia de “trambolho” e “lixo urbano”. Diz que o lugar é estratégico para empreendimentos e está sendo atrapalhado por militantes indígenas. Apesar do desconhecimento do significado histórico que tem o dito trambolho, que na verdade é um espaço de grande relevância para a memória indígena e para toda a sociedade brasileira, de fato há verdade no que ele diz. O espaço sempre foi estratégico do ponto-de-vista dos negócios, tanto que em 2013, discursos quase idênticos a esse foram proferidos por políticos de “admirável” reputação, como Sérgio Cabral, Eduardo Paes e todo o grupo que dominava a ALERJ a serviço da máfia das empreiteiras, no caso principalmente a Odebrecht.
Sabemos onde estão as figuras envolvidas na infâmia que foi a remoção da Aldeia Maraka’nà. Sabemos também que tipo de negócios queriam desenvolver no local. E acima de tudo sabemos que com esses negócios quem nada ganha é o cidadão carioca. Os tão aclamados grandes eventos esportivos sediados na cidade são um grande exemplo, pois só serviram para encher o bolso da máfia por trás de tudo e deixou como legado para a cidade apenas o saqueio dos bens públicos.




Por outro lado, o aldeamento que lá está estabelecido desde 2006 por resolução do I Congresso dos Povos Tamoios Originários, a Aldeia Maraka’nà, é um espaço que tem contribuído para a cidade na promoção da educação socioambiental com crianças e jovens, recebendo turmas de estudantes de escolas públicas e particulares de todas as séries, assim como também universitários, que vêm à aldeia no intuito de aprenderem um pouco mais sobre os costumes e conhecimentos dos povos indígenas. Na aldeia, aprendem sobre plantio, biodiversidade, cantos indígenas, fazem pinturas corporais e aprendem seu significado. Aprendem também sobre o processo de colonização e formação do povo brasileiro. Talvez se o deputado tivesse tido acesso a esse tipo de experiência, não precisasse estar se submetendo a essa vergonhosa exposição pública, que chegou ao ponto de gerar um incidente diplomático, por ter dito que “quem gosta de índio que vá para a Bolívia”.
Bom, devemos informar a este cidadão que muitos milênios antes dessas fronteiras nacionais terem sido criadas com base nesta mesma ganância por “bons negócios” que o deputado tanto almeja, aqui neste continente já habitavam povos que respeitavam a Mãe Terra e com ela viviam em harmonia. Os que hoje se acham proprietários desta terra, demonstram profunda ignorância e incapacidade de aqui habitar, ao tratar a natureza como mercadoria e a emporcalhar como se a terra que nos alimenta fosse um grande lixão onde todo tipo de sujeira pode ser jogado.
Por não conhecer nada do lugar ao qual se dispôs a difamar nas redes sociais, não entende o caráter educacional e de formação que possui a Aldeia Maraka’nà. No vídeo aparece assediando um parente mapuche, que veio do Chile e estava de viagem. Ele aqui foi bem recebido assim como as universidades recebem seus estudantes de intercâmbio vindos dos mais diversos cantos do planeta. Nem por isso, por exemplo, um estudante espanhol será abordado numa universidade e humilhado por ser de outro país. Este cidadão dá uma demonstração de total falta de civilidade ao agredir uma pessoa que nada tem a ver com seus interesses escusos de transformar o teritório da Aldeia Maraka’nà em “bons negócios”.




Não sabe que ali se realizou, em novembro de 2018, um congresso visando impulsionar a construção da primeira Universidade Indígena Autônoma no país. Apesar da presença do parente mapuche ter sido uma exceção, pois a Aldeia é quase que totalmente habitada por indígenas pertencentes a etnias situadas dentro do território nacional, não haveria qualquer problema em que parentes de outras partes do continente ou do planeta aqui venham contribuir. E isso dizemos pois o propósito da Aldeia não é fornecer moradia. A grande maioria dos que aqui estão já possuem suas moradias e para cá acorrem no intuito de defender o território e desenvolver os projetos culturais e socioambientais acima citados.
Não contente com as acusações infundadas, afirma que a aldeia virou uma “cracolândia”. Bom, o que temos a dizer é que no que dependeu dos governos estadual e federal em conluio com a Odebrecht, realmente o espaço tinha tudo para ter esse fim, visto que foi abandonado, tendo muitas árvores e prédios derrubados, os muros que protegiam o espaço também foram postos a abaixo deixando todo o território completamente vulnerável. Para completar, numa das esquinas do terreno foi construída uma passarela que mais parece um viaduto (bons negócios...), com cujo orçamento seria possível promover várias restaurações do prédio, e que liga nada a lugar nenhum e serve ainda como ponto de uso de entorpecentes pela população de rua. Os indígenas carregam a árdua e perigosa tarefa de “policiar” o espaço e com muito esforço conseguiram evitar que o interior do terreno se convertesse de fato numa “cracolândia”.




E como já era esperado desse tipo de político, coroa seu discurso acusando a Aldeia de ser um reduto de militantes, o que tenta provar ao mostrar um grafite no muro que ostenta a consigna “Aldeia Rexiste”, o que seria algo próprio da “esquerda”. Para os povos originários a idéia de resistência é algo que é praticamente inseparável da idéia de existência desde que o europeu começou seu processo de invasão colonial há mais de 500 anos! A idéia
de “esquerda” e “direita” é algo que existe há pouco mais de 2 séculos e para cá foi trazida pelos próprios europeus... não somos um movimento de esquerda, somos um movimento indígena e o nosso propósito não é nenhuma revolução socialista ou seja lá o que for. Nosso objetivo é apenas a garantia do respeito aos direitos dos povos originários, o respeito à Mãe Terra e à nossa dignidade como os primeiros habitantes deste continente. Aqueles que conseguem ver a justeza que há nisto, independente de sua filiação ideológica, são bem vindos para somar.
E são essas pessoas que, de boa fé, chegam para contribuir, que fazem possível nossa permanência no local, visto que não possuímos qualquer vínculos com partidos e governos, seja de esquerda ou de direita. Maior prova disso é que nossa expulsão em 2013 foi arquitetada por um governo que se dizia de esquerda, quando a então presidenta Dilma participou da negociata criminosa juntamente com Cabral, vendendo o imóvel federal ao governo do estado, que por sua vez concendeu o uso ao consórcio encabeçado pelo grupo Odebrecht.
Nossa subsistência é garantida por nossas plantações (que para o deputado são “mato”) e pelo apoio dos apoiadores, que na reportagem do O Globo são mencionados como “pessoas de aparência não indígena”. Sim, há inclusive indígenas por todo este país com essas características, já que nossa história está profundamente marcada por um processo de miscigenação, onde inclusive o estupro era das maiores causas desse fenômeno. Mas realmente a Aldeia conta com a presença de muitos não indígenas. São pessoas que possuem o desejo de conhecer um pouco mais de suas raízes ancestrais e acima de tudo, pessoas que antes de abrir a boca para repetir qualquer baboseira que vêem na TV ou nos jornais, procuram ver e aprender com os próprios olhos.
